Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

Freud fez uma pergunta que ainda ninguém conseguiu responder: o que querem as mulheres? Claro que se pode responder com gracinhas mas respondê-la a sério e com valor universal é mais difícil. Esta referência psicanalítica vem a propósito do anúncio da recandidatura do nosso Presidente. O verbo, neste caso, devia ser substituído por “poder”. O que pode fazer um Presidente da República portuguesa? Neste momento discute-se muito o significado da expressão que Cavaco utilizou: magistratura activa. Os politólogos concordam que é uma expressão enigmática porque os poderes presidenciais estão definidos pela constituição e foram exercidos com rigor pelos sucessivos presidentes, inclusive Cavaco Silva. O professor da Universidade de Aveiro, Carlos Jalali, adianta que o poder tribunício é o único que pode ser explorado. Quer dizer, que Cavaco, no caso de ganhar as próximas eleições, poderá falar mais do que falou na sua anterior magistratura. Para mim faz todo o sentido, embora não veja como. Cavaco Silva nunca se caracterizou por falar muito. Isto suscita-me dúvidas quanto à possibilidade de termos um Cavaco mais expressivo, loquaz, extrovertido e afável. Por outro lado, isto das eleições presidenciais tem algo de errado, quase esquizofrénico. Ao contrário dos candidatos a primeiro-ministro, os presidenciais prometem sempre aquilo que sabemos não poderem constitucionalmente cumprir. Um presidente pouco pode fazer para combater o desemprego, mudar a economia, castigar os maus ou premiar os bons. Um candidato a primeiro-ministro pode fazer promessas que terá a capacidade de cumprir ou esquecer. Mas ante a dúvida, os eleitores acreditam ou não. Com um futuro presidente, sabemos que a realização das suas promessas pouco ou nada tem que ver nem com as suas capacidades nem com os seus desejos. Até podem prometer o paraíso na terra. O certo é que só podem tentar ser respeitosos, dialogantes e levemente antagónicos ou cúmplices dos governos com os quais convivem. Ante a pergunta pseudo-freudiana, o que pode fazer um presidente da república, a resposta em linguagem oficial é salvaguardar o bom funcionamento das instituições. Ou em bom português, nada, zero, népia. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:50
Comentar

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Portugal surge na 32.ª posição no quadro dos 178 países analisados pela Transparência Internacional quanto à percepção da corrupção. O Jornal de Notícias, contudo, teve uma perspectiva optimista, ao realçar que, em 2009, Portugal aparecia em 35.º lugar, o pior ranking de sempre para o país desde o ano 2000. O DN foi mais céptico, ao relatar que, de acordo com os especialistas, esta descida no escalão da corrupção não é significativa. O Público desviou a conversa lembrando que o sistema jurídico português não é adequado nem tem os mecanismos necessários para combater estas actividades. Não gostei de nenhuma das opiniões dadas por estes importantes jornais. Muito deste desagrado devo-o ao El Pais, um jornal espanhol que às vezes vai bem e outras nem por isso. Mas, neste caso, gostei que tivesse explicado a manutenção da Espanha no 30.º lugar como uma consequência directa da bolha financeira que afectou todos os países e que, no caso espanhol, não foi pouco. A conclusão e o raciocínio são simples. Quanto menor é a quantidade de dinheiro, menor é também a capacidade monetária do corruptor para corromper. Claro que tudo muda. É provável que no próximo ano baixem os preços praticados pelos corrompidos. Dar uma autorização para uma urbanização, ou uma qualquer outra manigância que precisa de uma boa vontade excepcional dos funcionários ou governantes, vai naturalmente sofrer com a inflação e a falta de dinheiro. Chegará o dia em que se poderá ter os papéis certos obtidos ilegalmente por um pacote de cigarros ou vales de restaurante. Mas ainda falta para chegarmos aí. Ainda passaremos pelos saldos. Logo virá o pacote de serviços ilícitos pelo preço de um suborno. Mais tarde, rifas, raspadinhas e assim por diante. Ainda não chegámos à pobreza original dos nossos bíblicos ancestrais que queimavam borregos para ter boas colheitas. Mas lá chegaremos e teremos, finalmente, uma sociedade famigerada, sem luxos nem excessos, mas honesta e incorruptível. Ámen. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:19
Comentar

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

As prostitutas que trabalham numa estrada da Catalunha, perto da cidade de Lleida, foram obrigadas a usar colete reflector para se tornarem visíveis ao tráfego, evitando o risco de acidente e uma multa de 40 euros. Felizmente, há mulheres a quem tudo fica bem e não duvido de que muitas delas tirarão partido desta vestimenta obrigatória. No entanto, os catalães devem estar a viver momentos de angústia ontológica. A prostituição foi proibida recentemente pela câmara municipal da cidade. Por outro lado, sempre que alguém vir uma mulher com um colete reflector à beira da estrada, saberá que está diante de uma prostituta. Mas estando essa profissão proibida essa pessoa estará a deixar-se levar pelo preconceito. Isto pode levar a que as prostitutas não utilizem os coletes para não serem identificadas como tal e assim, além de sujeitas a pagar a multa, estariam a pôr as suas vidas em perigo. Ou pode acontecer o contrário, e as mulheres honestas com um problema no carro, podem recusar-se a utilizar o colete para não serem confundidas com as trabalhadoras do sexo. Neste caso, podem ter de pagar uma multa por infracção ao código da estrada, e, ainda por cima, ser detidas e acusadas de prostituição. Num caso assim, com certeza a detenção seria agravada com o desrespeito pela autoridade e resistência à polícia. Nenhuma mulher honesta aceitaria pacificamente ser tratada como uma prostituta. Por sua vez, uma profissional desta actividade, podia ter chegado à esta mesma conclusão e não utilizar o colete reflector como prova evidente de que não é uma prostituta. Senão, obviamente, tê-lo-ia posto. É uma situação tramada. Claro que alguma solução deverá ser encontrada para que mulheres inocentes não sejam confundidas com prostitutas nem prostitutas com mulheres honestas. Se calhar, é hora de inventar coletes com cores diferentes, que identificassem a profissão das transeuntes. Ou proibir as mulheres não profissionalizadas de usar o colete com decotes proeminentes, sapatos de salto alto e minissaia. Outra possibilidade é anular uma das duas leis: ou proíbem a prostituição ou a utilização de coletes reflectores por mulheres sozinhas na estrada. Parece muito complicado, mas é o problema de sempre: segurança ou liberdade. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:17
Comentar

Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

Quando se fala de uma Europa a duas velocidades, ninguém está a brincar. Temos o exemplo de uma cidade costeira da província de Nápoles, Castellammare di Stabia, em que um novo regulamento da Polícia Municipal prevê multas até 500 euros a quem usar vestidos demasiado decotados ou minissaias excessivamente curtas. Não se trata de proibir o uso de minissaias, mas multar quem mostre a roupa interior. Não será também permitido usar camisas que mostrem o soutien ou calças de cintura descida. Julgo que na Europa todos têm direito a andar na velocidade que quiserem. Castellamare tem os mesmos direitos que Amesterdão. E que ninguém se escandalize com isso. Se não gostar, faça férias noutra cidade. No entanto, tenho as minhas dúvidas sobre este regulamento que, por sinal, ainda não foi aprovado. Por exemplo, não se pode penalizar igualmente a exibição de uma alça do soutien, que é uma parte importante da roupa interior de uma mulher, com a exibição descarada de certos europeus hip-hopianos que mostrem o rego publicamente. Também declarar um decote como sendo demasiado nem sempre é consensual. Depende de muitos factores. Factores não só anatómicos como circunstanciais e temporais. Um decote matinal tem um efeito diferente que um decote nocturno. Na missa das onze qualquer decote provoca dúvidas teístas. Ao jantar, só aninha certezas. Uma minissaia, além da sinceridade locomotiva induz ao perigo de um movimento dorsal imprevisto. Uma minissaia imóvel nunca pode ser penalizada por nenhuma lei neste ou noutro mundo. Os legisladores de Catellamare também têm de definir a palavra cueca. A exposição duma cueca do tipo cinta ortopédica terá o mesmo valor ilegal de uma terna cuequinha tanga mostrada “en passant”? Não será mais criminoso, em termos estéticos, uma mais que outra? Também está provado que há mulheres de saias compridas que no seu cruzar de pernas provocam sensações mais fortes que outras de minissaias a recolher um lápis do chão sem flectir as pernas. Penso que há problemas jurídicos graves nesta regulamentação. Ainda por cima, a iniciativa é desrespeitosa para a história da cidade outrora vizinha da famosa Pompeia. Aquela que foi aniquilada por um vulcão puritano. Espero que os castellamerenses tomem juízo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:16
Comentar

Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

Foi com certeza o acaso que fez coincidir as negociações do fim-de-semana entre o governo e o PSD sobre o Orçamento de Estado com o alargamento dos horários de domingo nos hipermercados. Ambos os acontecimentos têm apenas em comum a actividade comercial realizada em horários novos estendidos por horas em que não se trabalhava dantes. Não sei se as negociações orçamentais terão o mesmo êxito que os novos horários das grandes superfícies. Mas ao menos psicologicamente, as reuniões na Assembleia deram alguma esperança aos portugueses. Independentemente de ver a malta a trabalhar durante o fim-de-semana ter um efeito moralizador inequívoco. Já me aconteceu estar em países no dia a seguir a um novo governo tomar posse. Passar em frente aos ministérios e ver luzes até altas horas da noite nos diferentes gabinetes, provocava nos noctívagos comentários de admiração e confiança. “Não perdem tempo”, “entraram a matar”, “assim é que é” e outras observações similares. Não importava sem estavam ou não de acordo com as novas autoridades eleitas. Mas apenas a verificação do facto aparente de estarem lá, no lugar do trabalho, inspirava alguma simpatia. Infelizmente, estas actividades anómalas dos negociadores em horários extraordinários vêm com semanas ou meses de atraso. Mas também não podemos pedir tudo. Por outro lado, não devemos subestimar as aparências. Aparentam esforçar-se, parecem estar a tentar encontrar uma solução, aparentam estar a fazer agora o que parecem não ter feito antes. O resultado não vai ser espectacular. Com acordo ou sem ele, não temos razões para estarmos felizes. Contudo, saber que estão a trabalhar ao mesmo tempo que nós estamos a tomar anti-depressivos cria um laço afectivo. Eles negoceiam e nós aparentamos não enlouquecer. Pelo menos, não antes que cheguem a um acordo. Está certo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:12
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO